AUTOR: JOÃO PEDDRO SIMÕES DIAS, Licenciado em Direito (FDUC) e Mestre em Estudos Europeus (EEG UM). Professor do Ensino Superior (Direito Comunitário, Direito Internacional Público e Ciência Política). Advogado e Assessor Jurídico. Investigador e autor de publicações sobre temas europeus. Colaboração sobre assuntos relacionadas com a União Europeia e a Ciência Política com diferentes órgãos de comunicação social escrita, radiofónica e televisiva. Com um doutoramento para terminar.....
17 de Março de 2010
O PEC mentiroso
[Publicado originariamente n'A Revolta]
Durante muitas semanas o país andou suspenso do anúncio do Programa de Estabilidade e Crescimento que o Governo tem de apresentar à Comissão Europeia para corrigir as derrapagens e derivas promovidas pelo próprio Governo ao longo do último ano – que, fruto das políticas públicas seguidas por causa e com o pretexto da crise económica internacional, conduziram o país a uma violação grosseira das regras da convergência a que estão vinculados os países que têm o euro como moeda comum, nomeadamente a dívida pública (onde os quase 85% nacionais se distanciam dos 60% permitidos na zona euro) e o défice orçamental (admitido num valor até 3% quando, entre nós, tal valor se cifrou em 9,3%).
Finalmente, ao fim de muitas semanas de adiamento, o Governo anunciou as principais medidas estruturantes do dito Programa de Estabilidade e Crescimento. Pretendendo salvar muito do mal feito, do pouco que se conhece do documento, as medidas anunciadas em quase nada se distinguem daquilo que os especialistas vinham antecipando: os salários da administração pública irão diminuir em termos reais; regressará a regra de uma admissão na função pública por cada dois funcionários que se reformem; os impostos irão subir não por efeito do aumento das taxas mas por via da drástica redução dos benefícios fiscais; as SCUTS irão ser portajadas; as mega-obras públicas irão ser adiadas por 2 anos (eufemismo para anunciar a sua suspensão) com excepção da linha do TGV Lisboa-Madrid que, pelo facto de já estar parcialmente adjudicada, se fosse suspensa iria custar mais dinheiro em indemnizações do que custará a continuidade da sua construção; as mais-valias bolsistas irão ser tributadas em 20%; em sede de IRS cria-se um novo escalão de 45% para quem ganhar mais de 150.000€/ano. Concatenando as medidas apresentadas e os seus destinatários, percebe-se com mediana clareza que, uma vez mais, irá ser a classe média a ter de apertar drasticamente o cinto, cabendo-lhe, mais uma vez, pagar a crise.
Poucas dúvidas haverá que estaremos perante um dos mais drásticos e dramáticos agravamentos das condições de vida que, em democracia, os portugueses irão sofrer. Agravamento talvez com paralelo apenas naquele que nos anos 80 foi imposto ao país pelo FMI. Significa isto que, cumprindo o trajecto dos últimos anos, seguramente continuaremos a empobrecer e a divergir da UE. Cada vez mais pobres e cada vez mais distantes do nível médio de vida da UE. E convirá aqui recordar que, quaisquer que sejam os critérios a que recorramos, no plano da UE já hoje fomos ultrapassados por muitos dos Estados que, há apenas e tão-só 20 anos, constituíam a parte pobre da Europa, a Europa saída do comunismo, cuja pobreza era tal e tanta que muitos sustentavam que nem sequer reuniam condições para, sequer, encararem a possibilidade de aderir à União. Pois bem, muitos desses Estados fizeram o seu caminho, aplicaram políticas públicas correctas e hoje já nos ultrapassaram. Somos, cada vez mais, dos mais pobres da União.
Mas o problema que motiva esta reflexão reside noutro aspecto que, infelizmente, não tenho visto discutido na comunicação social nem ser objecto de questão apropriada a quem de direito – e que é o seguinte:
Com todas as medidas anunciadas, com todo o apertar de cinto referido, que resultados se propõe o Governo alcançar? O Primeiro-Ministro respondeu, quando anunciou ao país as linhas gerais deste PEC: pretende reduzir o défice orçamental, num ano, em um ponto percentual. Ou seja, pretende que no final de 2010 o país tenha um défice de 8,3%. Ora, se todas estas medidas draconianas apenas terão como consequência baixar o défice orçamental em um ponto percentual, que outras medidas terão de ser tomadas, até 2013, para baixar esse mesmo défice em mais 5,3%? Esperará o Governo alcançar tal desiderato apenas como consequência do crescimento económico do país e da correspectiva subida da receita fiscal daí adveniente? Os peritos que têm estudado a sério a economia portuguesa dizem-nos que para isso ser verdade o País teria de crescer, nos próximos anos, a taxas anuais superiores a 4%. Se levarmos em consideração que, nos últimos 4 anos, não conseguimos crescer, no total, sequer 3%, vê-se o quão ilusório e mirífico ainda é o cenário que nos é apresentado. Isto, pese embora o seu dramatismo e as suas cores sombrias.
Estamos, pois, perante um PEC que nos promete fazer sair da crise mas certamente se irá revelar insuficiente para tal. E porquê? Fundamentalmente porque o Governo optou por, uma vez mais, adiar as verdadeiras medidas estruturantes que aliviem a despesa primária e permanente do Estado. Optou por privilegiar o aumento da receita – seja ela proveniente, por exemplo, da venda de parte das participações detidas na EDP, na Galp e na REN, bem como da privatização da TAP, dos CTT e da área seguradora da CGD ou da penalização, tributação e, em alguns casos, verdadeiro esbulho dos contribuintes.
Estamos, assim, ante um PEC mentiroso. Um PEC digno dum Governo cujo Primeiro-Ministro já se deve estar a preparar para enfrentar uma Comissão de Inquérito na Assembleia da República que irá averiguar se esse mesmo Primeiro-Ministro mentiu, ou não, ao Parlamento. Em suma estão bem um para o outro – este PEC para este Primeiro-Ministro.
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
Comentário à decisão do Presidente checo de viabilizar o Tratado de Lisboa. 17/10/2009
Comentário aos resultados do referendo ao Tratado de Lisboa na República da Irlanda. 03/10/2009
Comentário sobre a reeleição de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia.15/09/2009
Comentário à decisão do Conselho Europeu de reconduzir Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia. 19/06/2009
Comentário sobre a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. 05/06/2009
Comentário à Cimeira do Conselho Europeu. 11/12/2008
Comentário aos resultados do 1º referendo ao Tratado de Lisboa na República da Irlanda. 13/06/2008
Comentário aos prováveis resultados do referendo ao Tratado de Lisboa na República da Irlanda. 13/06/2008
Etiquetas
- Abkházia (1)
- Acordos do Luxemburgo (2)
- Alain Juppé (1)
- Alargamento da União Europeia (2)
- Alberto João Jardim (1)
- Albânia (1)
- Alcide de Gasperi (1)
- Alemanha (4)
- Ambiente (1)
- Angela Merkel (8)
- António Guterres (1)
- Aristide Briand (1)
- Arménia (1)
- Aveiro (1)
- Azerbeijão (1)
- Banco Central Europeu (1)
- Barack Obama (5)
- BE (2)
- Berlim (1)
- Betandwin (1)
- Biografias (2)
- Blogues (3)
- BPN (2)
- Bulgária (1)
- Bwin (1)
- Carlos Melancia (1)
- Carta dos Direitos Fundamentais da UE (1)
- Casa dos Comuns (1)
- Caso Freeport (1)
- Catalunha (1)
- Catherine Ashton (1)
- Cavaco Silva (8)
- CDS-PP (3)
- Checoslováquia (1)
- Cheque britânico (1)
- CIG (1)
- Cimeira de Sintra (2)
- Cimeira EUA - UE (1)
- Cimeira Rússia - UE (2)
- Cimeira UE - Brasil (2)
- Cimeira UE - Rússia (1)
- Cimeira UE - África (2)
- Ciência Política (1)
- Comissão Europeia (1)
- Conclusões do Conselho Europeu (19)
- Conselho da Europa (1)
- Conselho Europeu (6)
- Constituição Europeia (3)
- Coudenhove-Kalergi (1)
- Cronologia das RI (130)
- Câmara dos Comuns (1)
- Dalai Lama (1)
- David Milliband (1)
- Declaração de Berlim (1)
- Declaração de Bolonha (1)
- Dia da Europa (1)
- Direito Comunitário (1)
- Direito Penal Europeu do Ambiente (1)
- Discurso de Zurique (1)
- Documentos constitucionais da UE (3)
- Dominique Strauss-Kahn (1)
- Durão Barroso (19)
- Défice excessivo (1)
- ECOFIN (2)
- Educação (1)
- Eleição do Parlamento Europeu (1)
- Eleições autárquicas (1)
- Eleições europeias (5)
- Eslováquia (1)
- Estratégia de Lisboa (3)
- EUA (5)
- Euro (2)
- Eurogrupo (3)
- Eurojust (1)
- FIFA (2)
- Finlândia (2)
- Francisco Louçã (1)
- Francisco Moita Flores (1)
- Franco Frattini (1)
- França (2)
- Futebol (2)
- George Bush (1)
- Gerhard Schröeder (2)
- Geórgia (2)
- Giulio Andreotti (1)
- Golden-share (1)
- Gordon Brown (2)
- Governo (1)
- Grupo de Arraiolos (1)
- Grupo de Visegrado (1)
- Grécia (4)
- Guy Verhofstadt (1)
- Hans-Dietrich Genscher (1)
- Hans-Gert Poettering (1)
- Helmut Kohl (5)
- Herman Van Rompuy (2)
- Holanda (1)
- Hungria (3)
- Ideia de Europa (1)
- IDP (5)
- IEEI (5)
- Imigração (2)
- Instituto Europeu de Tecnologia (1)
- interesse vital (1)
- Inês Medeiros (1)
- Iraque (1)
- Irão (1)
- Isabel Alçada (1)
- Islândia (1)
- Itália (3)
- Jacques Chirac (3)
- Jaime Gama (1)
- Jean Monnet (1)
- Jean-Claude Junker (1)
- Jean-Claude Trichet (1)
- Jorge Sampaio (2)
- Jose Luis Zapatero (1)
- Joseph Retinger (1)
- José António Barreiros (1)
- José RIbeiro e Castro (2)
- José Sócrates (18)
- João de Deus Pinheiro (1)
- João Deus Pinheiro (1)
- João Paulo II (2)
- Justiça (2)
- Konrad Adenauer (1)
- Kosovo (6)
- Lech Kaczynski (2)
- Leituras (6)
- Letónia (1)
- Libertas (2)
- Livros (1)
- Lopes da Mota (1)
- LPFP (2)
- Macau (1)
- Manual de história germano-polaco (1)
- Manuel Alegre (2)
- Manuel Monteiro (1)
- Manuela Ferreira Leite (3)
- Martin Schulz (1)
- Massacre de Tiananmen (1)
- Medvedev (1)
- Memória (5)
- Mikhail Gorbatchov (1)
- Mladic (1)
- Moção de censura (1)
- MPT (2)
- Muro de Berlim (2)
- Mário Soares (1)
- Nacionalismo (1)
- Nagorno Karabath (1)
- NATO (3)
- Nicolas Sarkozy (12)
- Nuno Abecasis (1)
- Nótulas sobre o Tratado de Lisboa (3)
- O Dia em Análise (4)
- O Diabo (5)
- O Público (1)
- Oliveira e Costa (1)
- ONU (1)
- Ossétia do Sul (1)
- PAC (1)
- Pacto de Estabilidade e Crescimento (1)
- Parlamento Europeu (1)
- Partidos Políticos (2)
- País Basco (1)
- PEC (4)
- Pedro Passos Coelho (2)
- Pena de morte (1)
- Penso rápido (26)
- Pessoal (4)
- Pinto Monteiro (1)
- PNET Política (1)
- Polónia (7)
- Portugal (4)
- Postais de férias (7)
- PPE (1)
- Presidência portuguesa da UE (7)
- Primavera de Praga (1)
- Princípio da subsidiariedade (1)
- Pristina (1)
- Processo de Bolonha (1)
- Procurador Geral da República (4)
- Prémio Nobel da Paz (2)
- PS (2)
- PSD (3)
- PT (1)
- Queda do Muro de Berlim (3)
- RCP (3)
- Referendo europeu (6)
- Reino Unido (2)
- República Checa (9)
- República da Irlanda (2)
- Reunificação alemã (2)
- Revolução húngara (1)
- Riga (1)
- Robert Schuman (1)
- Romano Prodi (1)
- Ronal Reagan (1)
- Ronald Reagan (1)
- RTP (1)
- Rússia (3)
- SCML (2)
- Silvio Berlusconi (1)
- Slobodan Milosevic (1)
- Sorbonne (1)
- Srebrenica (1)
- Suécia (1)
- Ségolène Royal (2)
- Sérvia (3)
- Tony Blair (6)
- Tratado Constitucional (8)
- Tratado de Lisboa (15)
- Tratado de Nice (3)
- Tratado Institucional (2)
- Tratado Reformador (4)
- TSF (13)
- Turquia (10)
- União Europeia (2)
- Vaclav Havel (1)
- Vaclav Klaus (5)
- Victor Hugo (1)
- Vila Real (1)
- Vital Moreira (3)
- Vitor Constâncio (1)
- Winston Churchill (2)
- Xenofobia (1)
- Zimbabué (1)
- Áustria (1)


0 comentários:
Enviar um comentário