Para assinalar os vinte anos da queda do Muro de Berlim, reuniram ontem em Berlim, numa cerimónia presenciada por uma imensa multidão, três anciãos, três homens doentes que, apesar de tudo e da sua condição actual, foram três dos artífices desse momento inigualável da nossa História contemporânea: o ex-chanceler federal Helmut Kohl, o ex-Presidente soviético Mikhail Gorbatchov e o ex-Presidente dos EUA George Bush. Foram, em conjunto, três dos mais importantes obreiros dum feito que, pondo fim à ordem internacional estabelecida em Ialta no final da segunda guerra mundial, permitiu abrir as portas para o final da guerra-fria e criou as condições para que a Europa se reencontrasse consigo própria, pondo fim ao anátema da divisão que pairou sobre o velho continente durante quase meio século. Se a Europa política coincide hoje, praticamente, com a Europa geográfica, isso deve-se muito à actuação dos 3 estadistas que ontem se reencontraram em Berlim. Do grupo restrito de responsáveis pelo sucesso alcançado, faltou à cimeira de Berlim apenas a figura tutelar e providencial do saudoso Papa João Paulo II, sem cujo magistério de influência dificilmente se teriam alcançado os resultados que se alcançaram. E, se quisermos abrir um pouco mais o leque - sem esquecermos o exemplo dos mártires que deram as suas vidas pela liberdade na Europa e nos seus países (e aí podemo-nos servir dos exemplos do estudante checo Jan Palach auto-emulado na Praça de S. Wenceslau em Praga a 16 de Janeiro de 1969 porque era urgente protestar contra a sovietização da sua pátria, ou do padre Popieluzco, assassinado pelos serviços secretos polacos por ser simpatizante do sindicato livre Solidariedade) ou dos intelectuais que, formando uma autêntica Internacional de Dissidentes, recorreram ao poder do verbo para denunciar as atrocidades cometidas contra os seus concidadãos (de que é exemplo Vaclav Havel, futuro Presidente da Checoslováquia livre e da nova República Checa, inspirador da Carta 77 e autor d'«O Poder dos sem poder» - talvez devamos referenciar mais dois nomes que se encontram ligados aos acontecimentos que agora se recordam - Lech Walesa e Ronald Reagan. O primeiro, na sua Polónia natal, foi o primeiro a ousar defrontar o poder errático dentro das suas próprias fronteiras brandindo como arma apenas a palavra e buscando as suas forças nas eucaristias diárias celebradas à porta dos estaleiros navais de Gdansk; o segundo, ao apostar na credibilização e fortalecimento da política externa dos EUA, confrontou o poder soviético com as suas próprias debilidades, levando-o a reconhecer a sua incapacidade para competir com o mundo livre ocidental nos domínios económico e militar em simultâneo. Apostando no reforço do poder militar norte-americano, criou condições para o reconhecimento do fracasso do modelo soviético.
AUTOR: JOÃO PEDDRO SIMÕES DIAS, Licenciado em Direito (FDUC) e Mestre em Estudos Europeus (EEG UM). Professor do Ensino Superior (Direito Comunitário, Direito Internacional Público e Ciência Política). Advogado e Assessor Jurídico. Investigador e autor de publicações sobre temas europeus. Colaboração sobre assuntos relacionadas com a União Europeia e a Ciência Política com diferentes órgãos de comunicação social escrita, radiofónica e televisiva. Com um doutoramento para terminar.....
1 de Novembro de 2009
Recordando os vinte anos da queda do Muro de Berlim
Para assinalar os vinte anos da queda do Muro de Berlim, reuniram ontem em Berlim, numa cerimónia presenciada por uma imensa multidão, três anciãos, três homens doentes que, apesar de tudo e da sua condição actual, foram três dos artífices desse momento inigualável da nossa História contemporânea: o ex-chanceler federal Helmut Kohl, o ex-Presidente soviético Mikhail Gorbatchov e o ex-Presidente dos EUA George Bush. Foram, em conjunto, três dos mais importantes obreiros dum feito que, pondo fim à ordem internacional estabelecida em Ialta no final da segunda guerra mundial, permitiu abrir as portas para o final da guerra-fria e criou as condições para que a Europa se reencontrasse consigo própria, pondo fim ao anátema da divisão que pairou sobre o velho continente durante quase meio século. Se a Europa política coincide hoje, praticamente, com a Europa geográfica, isso deve-se muito à actuação dos 3 estadistas que ontem se reencontraram em Berlim. Do grupo restrito de responsáveis pelo sucesso alcançado, faltou à cimeira de Berlim apenas a figura tutelar e providencial do saudoso Papa João Paulo II, sem cujo magistério de influência dificilmente se teriam alcançado os resultados que se alcançaram. E, se quisermos abrir um pouco mais o leque - sem esquecermos o exemplo dos mártires que deram as suas vidas pela liberdade na Europa e nos seus países (e aí podemo-nos servir dos exemplos do estudante checo Jan Palach auto-emulado na Praça de S. Wenceslau em Praga a 16 de Janeiro de 1969 porque era urgente protestar contra a sovietização da sua pátria, ou do padre Popieluzco, assassinado pelos serviços secretos polacos por ser simpatizante do sindicato livre Solidariedade) ou dos intelectuais que, formando uma autêntica Internacional de Dissidentes, recorreram ao poder do verbo para denunciar as atrocidades cometidas contra os seus concidadãos (de que é exemplo Vaclav Havel, futuro Presidente da Checoslováquia livre e da nova República Checa, inspirador da Carta 77 e autor d'«O Poder dos sem poder» - talvez devamos referenciar mais dois nomes que se encontram ligados aos acontecimentos que agora se recordam - Lech Walesa e Ronald Reagan. O primeiro, na sua Polónia natal, foi o primeiro a ousar defrontar o poder errático dentro das suas próprias fronteiras brandindo como arma apenas a palavra e buscando as suas forças nas eucaristias diárias celebradas à porta dos estaleiros navais de Gdansk; o segundo, ao apostar na credibilização e fortalecimento da política externa dos EUA, confrontou o poder soviético com as suas próprias debilidades, levando-o a reconhecer a sua incapacidade para competir com o mundo livre ocidental nos domínios económico e militar em simultâneo. Apostando no reforço do poder militar norte-americano, criou condições para o reconhecimento do fracasso do modelo soviético. Mas este encontro de Berlim teve também o condão de permitir recordar aqueles que, mesmo no campo ocidental, sempre se mostraram, mais ou menos explicitamente, adversários declarados da reunificação alemã - primeiro passo para a própria reunificação europeia e a queda dos regimes ditatoriais do leste europeu. Desde logo, François Mitterrand, o Presidente francês a quem é atribuída a célebre expressão de que gostava tanto da Alemanha que preferia que houvesse duas em vez duma única e reunificada. Resquícios antigos de divergências seculares que, recorde-se, estiveram na base do próprio projecto comunitário e da Declaração Schuman de 9 de Maio de 1950. Mas também Margaret Thatcher, cuja antipatia e desconfiança pelo processo de reunificação das duas Alemanhas nunca foi escondido - e alguns dos seus biógrafos e colaboradores mais chegados têm relatado com detalhe insuspeito.
Olhando para a fotografia que regista esta encontro de Berlim, é também uma onda de nostalgia que perpassa e não pode deixar de ficar registada. Desde logo pela certeza de terem sido tempos historicamente relevantes e que irão ficar para a História aqueles que, nos finais dos anos oitenta e princípios dos anos noventa do século passado, puderam ser vividos e de forma apaixonante - ainda que, eventualmente, sem uma consciência perfeita (que só nos é dada pela distância histórica) da sua importância e da sua relevância. Mas também pela convicção de que as actuais lideranças europeias (e não só) se encontram a considerável e enorme distância da qualidade das lideranças de há vinte anos....
| Li este texto e: |
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
Comentário à decisão do Presidente checo de viabilizar o Tratado de Lisboa. 17/10/2009
Comentário aos resultados do referendo ao Tratado de Lisboa na República da Irlanda. 03/10/2009
Comentário sobre a reeleição de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia.15/09/2009
Comentário à decisão do Conselho Europeu de reconduzir Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia. 19/06/2009
Comentário sobre a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. 05/06/2009
Comentário à Cimeira do Conselho Europeu. 11/12/2008
Comentário aos resultados do 1º referendo ao Tratado de Lisboa na República da Irlanda. 13/06/2008
Comentário aos prováveis resultados do referendo ao Tratado de Lisboa na República da Irlanda. 13/06/2008
Etiquetas
- Abkházia (1)
- Acordos do Luxemburgo (2)
- Alain Juppé (1)
- Alargamento da União Europeia (2)
- Alberto João Jardim (1)
- Albânia (1)
- Alcide de Gasperi (1)
- Alemanha (4)
- Ambiente (1)
- Angela Merkel (8)
- António Guterres (1)
- Aristide Briand (1)
- Arménia (1)
- Aveiro (1)
- Azerbeijão (1)
- Banco Central Europeu (1)
- Barack Obama (5)
- BE (2)
- Berlim (1)
- Betandwin (1)
- Biografias (2)
- Blogues (3)
- BPN (2)
- Bulgária (1)
- Bwin (1)
- Carlos Melancia (1)
- Carta dos Direitos Fundamentais da UE (1)
- Casa dos Comuns (1)
- Caso Freeport (1)
- Catalunha (1)
- Catherine Ashton (1)
- Cavaco Silva (8)
- CDS-PP (3)
- Checoslováquia (1)
- Cheque britânico (1)
- CIG (1)
- Cimeira de Sintra (2)
- Cimeira EUA - UE (1)
- Cimeira Rússia - UE (2)
- Cimeira UE - Brasil (2)
- Cimeira UE - Rússia (1)
- Cimeira UE - África (2)
- Ciência Política (1)
- Comissão Europeia (1)
- Conclusões do Conselho Europeu (19)
- Conselho da Europa (1)
- Conselho Europeu (6)
- Constituição Europeia (3)
- Coudenhove-Kalergi (1)
- Cronologia das RI (130)
- Câmara dos Comuns (1)
- Dalai Lama (1)
- David Milliband (1)
- Declaração de Berlim (1)
- Declaração de Bolonha (1)
- Dia da Europa (1)
- Direito Comunitário (1)
- Direito Penal Europeu do Ambiente (1)
- Discurso de Zurique (1)
- Documentos constitucionais da UE (3)
- Dominique Strauss-Kahn (1)
- Durão Barroso (19)
- Défice excessivo (1)
- ECOFIN (2)
- Educação (1)
- Eleição do Parlamento Europeu (1)
- Eleições autárquicas (1)
- Eleições europeias (5)
- Eslováquia (1)
- Estratégia de Lisboa (3)
- EUA (5)
- Euro (2)
- Eurogrupo (3)
- Eurojust (1)
- FIFA (2)
- Finlândia (2)
- Francisco Louçã (1)
- Francisco Moita Flores (1)
- Franco Frattini (1)
- França (2)
- Futebol (2)
- George Bush (1)
- Gerhard Schröeder (2)
- Geórgia (2)
- Giulio Andreotti (1)
- Golden-share (1)
- Gordon Brown (2)
- Governo (1)
- Grupo de Arraiolos (1)
- Grupo de Visegrado (1)
- Grécia (4)
- Guy Verhofstadt (1)
- Hans-Dietrich Genscher (1)
- Hans-Gert Poettering (1)
- Helmut Kohl (5)
- Herman Van Rompuy (2)
- Holanda (1)
- Hungria (3)
- Ideia de Europa (1)
- IDP (5)
- IEEI (5)
- Imigração (2)
- Instituto Europeu de Tecnologia (1)
- interesse vital (1)
- Inês Medeiros (1)
- Iraque (1)
- Irão (1)
- Isabel Alçada (1)
- Islândia (1)
- Itália (3)
- Jacques Chirac (3)
- Jaime Gama (1)
- Jean Monnet (1)
- Jean-Claude Junker (1)
- Jean-Claude Trichet (1)
- Jorge Sampaio (2)
- Jose Luis Zapatero (1)
- Joseph Retinger (1)
- José António Barreiros (1)
- José RIbeiro e Castro (2)
- José Sócrates (18)
- João de Deus Pinheiro (1)
- João Deus Pinheiro (1)
- João Paulo II (2)
- Justiça (2)
- Konrad Adenauer (1)
- Kosovo (6)
- Lech Kaczynski (2)
- Leituras (6)
- Letónia (1)
- Libertas (2)
- Livros (1)
- Lopes da Mota (1)
- LPFP (2)
- Macau (1)
- Manual de história germano-polaco (1)
- Manuel Alegre (2)
- Manuel Monteiro (1)
- Manuela Ferreira Leite (3)
- Martin Schulz (1)
- Massacre de Tiananmen (1)
- Medvedev (1)
- Memória (5)
- Mikhail Gorbatchov (1)
- Mladic (1)
- Moção de censura (1)
- MPT (2)
- Muro de Berlim (2)
- Mário Soares (1)
- Nacionalismo (1)
- Nagorno Karabath (1)
- NATO (3)
- Nicolas Sarkozy (12)
- Nuno Abecasis (1)
- Nótulas sobre o Tratado de Lisboa (3)
- O Dia em Análise (4)
- O Diabo (5)
- O Público (1)
- Oliveira e Costa (1)
- ONU (1)
- Ossétia do Sul (1)
- PAC (1)
- Pacto de Estabilidade e Crescimento (1)
- Parlamento Europeu (1)
- Partidos Políticos (2)
- País Basco (1)
- PEC (4)
- Pedro Passos Coelho (2)
- Pena de morte (1)
- Penso rápido (26)
- Pessoal (4)
- Pinto Monteiro (1)
- PNET Política (1)
- Polónia (7)
- Portugal (4)
- Postais de férias (7)
- PPE (1)
- Presidência portuguesa da UE (7)
- Primavera de Praga (1)
- Princípio da subsidiariedade (1)
- Pristina (1)
- Processo de Bolonha (1)
- Procurador Geral da República (4)
- Prémio Nobel da Paz (2)
- PS (2)
- PSD (3)
- PT (1)
- Queda do Muro de Berlim (3)
- RCP (3)
- Referendo europeu (6)
- Reino Unido (2)
- República Checa (9)
- República da Irlanda (2)
- Reunificação alemã (2)
- Revolução húngara (1)
- Riga (1)
- Robert Schuman (1)
- Romano Prodi (1)
- Ronal Reagan (1)
- Ronald Reagan (1)
- RTP (1)
- Rússia (3)
- SCML (2)
- Silvio Berlusconi (1)
- Slobodan Milosevic (1)
- Sorbonne (1)
- Srebrenica (1)
- Suécia (1)
- Ségolène Royal (2)
- Sérvia (3)
- Tony Blair (6)
- Tratado Constitucional (8)
- Tratado de Lisboa (15)
- Tratado de Nice (3)
- Tratado Institucional (2)
- Tratado Reformador (4)
- TSF (13)
- Turquia (10)
- União Europeia (2)
- Vaclav Havel (1)
- Vaclav Klaus (5)
- Victor Hugo (1)
- Vila Real (1)
- Vital Moreira (3)
- Vitor Constâncio (1)
- Winston Churchill (2)
- Xenofobia (1)
- Zimbabué (1)
- Áustria (1)


0 comentários:
Enviar um comentário